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A LUDOTERAPIA NO CONTEXTO EDUCATIVO:

 

DESAFIOS E 

POSSIBILIDADES DA ATUAÇÃO DA PSICOLOGIA ESCOLAR SOB A 

ÓTICA DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA

PLAY THERAPY IN THE EDUCATIONAL CONTEXT: CHALLENGES AND 

POSSIBILITIES OF SCHOOL PSYCHOLOGY FROM THE PERSPECTIVE OF 

THE PERSON-CENTERED APPROACH

RESUMO

O presente artigo discute a atuação da psicóloga escolar na educação infantil (creche-
escola) sob a perspectiva da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), articulando a prática 
institucional com os princípios da Ludoterapia Centrada na Criança (LCC). Frente à 
cultura de imediatismo e enquadramento comportamental, propõe-se uma transposição do 
referencial rogeriano do setting clínico para o contexto educativo, estruturada em três 
frentes de intervenção: a observação participante no brincar livre, o suporte empático aos 
educadores e o manejo terapêutico de limites. A metodologia de caráter teórico-reflexivo 
analisa como a oferta das condições facilitadoras — empatia, congruência e consideração 
positiva incondicional — atua na remoção de barreiras psicossociais, permitindo que a 
tendência atualizante da criança opere de forma plena. Os resultados apontam para uma 
mudança qualitativa no clima relacional, o fortalecimento do autoconceito infantil, a 
diminuição da ansiedade institucional e a ressignificação do olhar docente frente aos 
comportamentos   disruptivos,   que   passam   a   ser   compreendidos   como   expressões   de 
necessidades organísmicas. Conclui-se que a inserção da Ludoterapia na creche-escola 
promove   uma   ruptura   com   modelos   meramente   assistencialistas   ou   punitivos, 
consolidando   a   instituição   como   um   espaço   de   promoção   de   saúde   mental   e 
corresponsabilidade existencial, onde a criança assume o protagonismo de sua própria 
história escolar.

PALAVRAS-CHAVE:

 abordagem centrada na pessoa; educação infantil; ludoterapia; 

psicologia escolar; tendência atualizante

ABSTRACT:

T

his article discusses the role of the school psychologist in early childhood education 

(daycare/school)   from   the   perspective   of   the   Person-Centered   Approach   (PCA), 
articulating institutional practice with the principles of Child-Centered Play Therapy 
(CCPT). In the face of a culture of immediacy and behavioral framing, it proposes a 
transposition of the Rogerian framework from the clinical setting to the educational 
context, structured around three intervention fronts: participant observation in free play, 
empathic   support   for   educators,   and   the   therapeutic   management   of   limits.   The 
theoretical-reflective methodology analyzes how the provision of facilitating conditions
—empathy, congruence, and unconditional positive regard—acts to remove psychosocial 
barriers, allowing the child's actualizing tendency to operate fully. The results point to a 
qualitative change in the relational climate, the strengthening of the child's self-concept, a 

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Trabalho submetido em janeiro de 2026. Aprovado em junho de 2026

Trabalho submetido em janeiro de 2026. Aprovado em junho de 2026

1 Doutora em Ciências da Educação; Mestre em Ciências da Educação/Psicóloga. Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS)

Sofia Ivo¹

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decrease in institutional anxiety, and a re-signification of the teacher's perspective on 
disruptive behaviors, which are now understood as expressions of organismic needs. It is 
concluded that the inclusion of Play Therapy in daycare centers promotes a break with 
purely welfare-oriented or punitive models, consolidating the institution as a space for 
promoting mental health and existential co-responsibility, where the child takes on the 
leading role in their own school history.

KEYWORDS:   

person-centered   approach;   early   childhood   education;   play   therapy; 

school psychology; updating trend

Introdução: 

A creche-escola é, muitas vezes, o primeiro contato da criança com o mundo 

externo. Nesse cenário, a psicologia atua como facilitadora de relações saudáveis. A 

escolha da Ludoterapia que tem como base a Abordagem Centrada na Pessoa de Carl 

Rogers, oferece um olhar que não busca corrigir comportamentos, mas proporcionar um 

ambiente de segurança psicológica onde a criança possa se atualizar.

A   entrada   da   criança   na   creche-escola   representa   um   dos   marcos   mais 

significativos da trajetória vital, configurando-se como o primeiro contato estruturado 

com o mundo externo e social. Nesse cenário de transição, a psicologia escolar assume 

uma   função   de   facilitadora   de   relações   saudáveis,   distanciando-se   de   modelos 

normatizados de "correção" para adotar uma postura de acolhimento existencial. 

Ao fundamentar essa prática na Ludoterapia Centrada na Criança (LCC), vertente 

da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) de Carl Rogers, a atuação profissional passa a 

priorizar a criação de um ambiente de segurança psicológica que permita à criança o 

exercício à tendência atualizante. (Rogers, 2009)

A base dessa intervenção reside na convicção de que todo organismo possui uma 

motivação intrínseca para se desenvolver de forma plena e construtiva. (Rogers, 1991) Na 

rotina escolar, isso implica compreender que comportamentos frequentemente rotulados 

como "difíceis", como o choro na separação dos pais, as mordidas ou o isolamento, não 

são defeitos a serem extirpados, mas manifestações de um organismo tentando se adaptar 

e expressar as próprias necessidades. 

A psicóloga, imbuída da atitude ludoterapêutica, não busca moldar a criança para 

que   ela   se   encaixe   em   um   padrão   ideal   de   aluno,   mas   sim   oferecer   as   condições 

necessárias para que encontre caminhos maduros de autorregulação e socialização.

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A tendência atualizante, conceito central na obra de Rogers (1991), é o motor que 

impulsiona a criança em direção à autonomia e à complexidade, mesmo diante das 

adversidades do ambiente escolar. Na creche-escola, a psicóloga atua como uma guardiã 

desse processo de autoatualização, compreendendo que a criança não é um ser passivo a 

ser   moldado,   mas   um   organismo   ativo   que   busca   constantemente   expandir   as 

potencialidades. Quando a profissional oferece um clima de liberdade experiencial, ela 

permite que essa força intrínseca direcione o desenvolvimento da criança; assim, o foco 

da intervenção deixa de ser o controle do comportamento e passa a ser a remoção de 

obstáculos psicossociais. Nesse sentido, ao sentir-se segura e compreendida na totalidade, 

a   criança   consegue   integrar   as   experiências   e   confiar   no   próprio   organismo, 

transformando o ato de aprender e conviver em um movimento natural de florescimento 

do eu. (Axline, 1972)

Para que esse crescimento ocorra, a profissional sustenta a prática no tripé das 

condições   facilitadoras:   empatia,   consideração   positiva   incondicional   e   congruência. 

Através da empatia, a psicóloga atua como um espelho sensível que valida a experiência 

interna da criança; ao nomear um sentimento de frustração durante uma disputa por um 

brinquedo, ela ajuda a criança a simbolizar a própria emoção, reduzindo a necessidade da 

ação impulsiva. A consideração positiva incondicional garante que a criança se sinta 

valorizada independentemente do comportamento momentâneo, o que reduz as ameaças 

ao autoconceito e fortalece a segurança para explorar o novo. Por fim, a congruência da 

psicóloga estabelece uma relação de transparência e autenticidade, servindo como um 

modelo de integridade humana no ambiente educativo. (Rogers, 2009)

Nesse contexto, o brincar deixa de ter uma finalidade meramente pedagógica para 

tornar-se a linguagem central de cura e autodescoberta. Ao proporcionar espaços de 

brincar livre, onde o controle e a direção pertencem à criança, a psicóloga escolar permite 

que ela processe as próprias tensões e medos em um território seguro. Essa atuação 

expande-se também para o corpo docente e as famílias, promovendo uma cultura escolar 

que confia na capacidade de crescimento do indivíduo. Em última análise, a aplicação da 

ACP na creche-escola transforma a instituição em um solo fértil onde o foco não é apenas 

o ensino, mas o desenvolvimento de pessoas plenamente funcionais e autênticas.

Desta forma, para Landreth (2012), o brincar transcende o entretenimento para 

consolidar-se como a linguagem primordial da infância. Para a criança pequena, que ainda 

não domina a complexidade da linguagem verbal para expressar abstrações emocionais, o 

brinquedo funciona como o vocabulário e o brincar como o discurso articulado. Assim, 

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"os brinquedos são as palavras das crianças e o brincar é a sua linguagem" (Landreth, 

2012, p. 12).

É por meio do faz-de-conta e da manipulação de objetos que a criança projeta o 

mundo interno, elabora conflitos, comunica medos e ensaia soluções para os desafios da 

convivência social. Ao reconhecer o brincar como uma forma legítima de comunicação, a 

psicóloga escolar deixa de ser uma mera observadora para tornar-se uma ouvinte atenta 

dessa narrativa simbólica, permitindo que a criança "diga" por meio da ação aquilo que 

ainda não consegue traduzir em palavras (Landreth, 2012).

As oito atitudes propostas por Virginia Axline oferecem o suporte prático para que 

a psicóloga operacionalize a Abordagem Centrada na Pessoa no cotidiano da creche. 

Primeiramente, a profissional deve estabelecer um relacionamento caloroso e amigável, 

criando   o   vínculo   necessário   para   a   segurança   emocional.   Em   seguida,   busca-se 

a aceitação plena da criança exatamente como ela é, sem pressões para que mude. A 

terceira atitude foca na permissividade, estabelecendo um sentimento de liberdade para 

que a criança expresse os sentimentos completamente (Axline, 1972).

Adicionalmente, para Axline (1972), a psicóloga deve estar alerta para reconhecer 

e   refletir   os   sentimentos expressos,   ajudando   a   criança   a   ganhar   autocompreensão. 

Mantém-se também um profundo respeito pela capacidade da criança em resolver os 

próprios problemas, devolvendo a ela a responsabilidade pelas próprias escolhas. A sexta 

atitude orienta que a profissional não tente dirigir as ações ou a conversa, permitindo que 

a   criança   lidere   o   caminho.   Complementarmente,   compreende-se   que   o   processo   é 

gradual, respeitando o tempo e o ritmo do desenvolvimento infantil. Por fim, a psicóloga 

estabelece apenas os limites necessários para ancorar a terapia à realidade e garantir a 

segurança, sem jamais ferir a autonomia do ser. Assim, "a ludoterapia é a oportunidade 

que se dá à criança para que ela experimente o crescimento sob as circunstâncias mais 

favoráveis" (Axline, 1972, p. 116).

O brincar na primeira infância, conforme postulado por Axline (1972), não é 

meramente uma atividade recreativa, mas a linguagem primordial por meio da qual a 

criança comunica a realidade subjetiva. Ao transpor essa premissa para o ambiente da 

creche,   a   atividade   de   pintura   das   mãos,   por   exemplo,   torna-se   um   exercício   de 

experienciação. A autora enfatiza que a psicóloga deve criar um clima de permissividade 

onde a criança se sinta livre para expressar os sentimentos de forma plena. Nesse sentido, 

ao oferecer o contorno da própria mão como suporte, valida-se a identidade da criança, 

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permitindo que as cores e texturas funcionem como palavras em um estágio onde o 

vocabulário verbal ainda é incipiente.

Complementando essa visão, Landreth (2012) argumenta que o brincar é o meio 

pelo qual a criança ganha domínio sobre as experiências internas. Na dinâmica proposta, o 

contato   sensorial   com   a   tinta   guache   e   a   exploração   tátil   não   apenas   estimulam   o 

desenvolvimento neuropsicomotor, mas servem como uma ferramenta de autorregulação 

emocional. Para o autor, o foco deve estar sempre na criança, e não no problema ou no 

produto final. Portanto, o varal de mãos no mural da sala deixa de ser uma simples peça 

decorativa para tornar-se uma representação coletiva da segurança emocional, onde cada 

rastro de tinta é um ato de comunicação validado pela presença empática do adulto.

Dessa forma, a articulação entre o brincar e o fazer artístico na creche, sob a ótica 

desses autores, propicia um ambiente de crescimento onde o erro é inexistente e a 

expressão é soberana. Ao documentar essas emoções por meio do lúdico, a psicóloga 

escolar facilita a construção de um "eu" fortalecido, permitindo que a criança processe e 

integre os próprios afetos. O resultado, exposto no mural, funciona como um espelho da 

saúde mental do grupo, evidenciando que, na Ludoterapia aplicada à educação, o processo 

de descoberta é o que verdadeiramente sustenta o desenvolvimento integral do sujeito 

(Landreth, 2012).

  Sob essa perspectiva, em nossa concepção, a   transposição dos princípios da 

Ludoterapia Centrada na Criança para o ambiente da creche-escola exige que a psicóloga 

realize uma leitura sensível do espaço, compreendendo que a função não é transplantar o 

consultório para a sala de aula, mas sim disseminar uma postura facilitadora em toda a 

ecologia escolar. Essa atuação se desdobra em três frentes fundamentais:

A observação participante e o brincar livre constituem o eixo de atuação direta 

com as crianças. Diferente da observação clínica tradicional, que muitas vezes busca 

classificar patologias, a psicóloga na creche utiliza a própria presença para validar a 

existência do aluno. Ao inserir-se nos momentos de brincar livre, ela não interfere na 

dinâmica,   mas   oferece   uma   "presença  psicológica"   que   sustenta   as   explorações  das 

crianças. Ela atua como um facilitador que garante que o pátio seja um espaço onde o erro 

é permitido e a criatividade é soberana. Quando a criança percebe que pode brincar sem 

ser   constantemente   corrigida   ou   dirigida   por   um   objetivo   pedagógico   imediato,   ela 

experimenta a liberdade experiencial necessária para que a tendência atualizante dite o 

ritmo das descobertas. A psicóloga observa as metáforas do brincar e, quando necessário, 

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intervém apenas para refletir sentimentos, transformando conflitos em oportunidades de 

autoconhecimento.

Desta forma, a inserção da psicóloga no território do brincar livre configura-se 

como um ato político-pedagógico de descentralização do poder do adulto. Ao abrir mão 

do controle diretivo e da necessidade de monitoramento corretivo, a psicóloga estabelece 

um campo de permissividade profunda. Esse silêncio operativo e focado não significa 

ausência ou negligência; trata-se de um suporte invisível que assegura à criança que o 

mundo interno é digno de nota e respeito. De acordo com Axline (1972), sob esse olhar 

que testemunha sem julgar, a brincadeira deixa de ser uma mera atividade de recreação ou 

gasto de energia e assume o caráter de linguagem expressiva primordial. É nesse espaço 

sem   demandas   externas   de   recompensa   ou   punição   que   a   criança   pode   projetar   as 

angústias íntimas, ensaiar papéis sociais e manipular a realidade simbólica para processar 

as tensões próprias do processo de separação familiar e individuação.  

Nesse cenário, a intervenção por meio do reflexo de sentimentos atua como um 

potente organizador psíquico. Quando um conflito emerge na disputa por um objeto, a 

resposta usual do ambiente tende a ser a repressão do comportamento ou a imposição de 

uma partilha artificial. A psicóloga orientada pela ACP, contudo, intervém para nomear as 

forças afetivas em jogo, traduzindo o ato impulsivo, por exemplo, como a agressão física 

ou   o   choro,   em   uma   experiência   passível   de   simbolização.   Ao   escutar   e   refletir   a 

frustração ou o medo da criança, a psicóloga valida a autenticidade daquela vivência 

organísmica. Esse processo de espelhamento empático reduz a ameaça ao autoconceito 

infantil e permite que a própria criança, amparada por essa regulação externa, acione os 

recursos internos para reconfigurar a ação e buscar saídas criativas e autônomas para as 

interações sociais (Axline, 1972).

A psicóloga atua no suporte aos professores, facilitando as relações de quem 

cuida. Frequentemente, os professores de educação infantil enfrentam altos níveis de 

estresse e a pressão por manter o controle da turma. Aqui, a psicóloga não atua como uma 

supervisora técnica, mas como uma facilitadora rogeriana para o próprio docente. Ao 

oferecer escuta empática e consideração positiva incondicional ao professor, ela cria um 

ambiente onde ele também se sente seguro para expressar as frustrações e limites. O 

objetivo é que o professor, ao sentir-se compreendido, consiga replicar essa mesma 

atitude   empática   com   os   alunos.   Essa   frente   de   atuação   visa   humanizar   o   olhar 

pedagógico,  ajudando  o  docente  a enxergar  além  do  comportamento  disruptivo  e a 

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compreender   a   criança   como   um   ser   em   processo   de   vir-a-ser,   reduzindo   posturas 

autoritárias e fortalecendo o vínculo afetivo.

Esse   movimento   de   retroalimentação   empática   fundamenta-se   na   premissa 

rogeriana de que as condições facilitadoras são transmissíveis através da experiência 

vivida. Portanto, sob o nosso ponto de vista. quando a psicóloga valida a sobrecarga do 

professor, ela quebra o ciclo de exigências institucionais que cobram desse profissional 

uma postura infalível e puramente técnica. Desprovido da necessidade de erguer defesas 

ou de mascarar as próprias vulnerabilidades, o professor experimenta uma reorganização 

do autoconceito profissional. Essa segurança psicológica interna permite que ele desista 

do controle rígido como única ferramenta de manejo de classe. A vulnerabilidade acolhida 

pela psicóloga transforma-se em tolerância e flexibilidade com as crianças. 

Aprofundando   essa   relação,   o   suporte   psicológico   baseado   na   ACP   atua 

diretamente na desconstrução dos rótulos que engessam o desenvolvimento infantil no 

cotidiano escolar. Sob a pressão do relógio e das metas pedagógicas, é comum que o 

professor objetive ou reduza a criança às manifestações sintomáticas, categorizando-a 

como "agressiva", "hiperativa" ou "apática". Ao oferecer ao professor um espaço de 

consideração positiva incondicional, a psicóloga o ajuda a suspender os próprios juízos de 

valor em relação aos alunos. 

Essa intervenção propicia uma mudança epistemológica na prática pedagógica: o 

foco   migra   da   superfície   do   comportamento   disruptivo   para   a   profundidade   da 

necessidade organísmica subjacente. Entende-se, por exemplo, que a criança que morde, 

grita ou se isola não busca desafiar a autoridade do professor, mas está comunicando, por 

meio da única linguagem disponível no repertório de que ainda dispõe, um obstáculo na 

tendência atualizante que precisa ser decodificado e acolhido pelo adulto de referência.

Por fim, o manejo de limites é o ponto de maior articulação prática entre a teoria e 

a rotina escolar. Na perspectiva da ACP, o limite não é visto como uma punição ou uma 

forma de cerceamento da liberdade, mas como uma estrutura de segurança que ancora a 

criança na realidade. A psicóloga orienta que o limite deve ser estabelecido sobre a ação e 

nunca sobre o sentimento. Enquanto o desejo da criança de bater em um colega por raiva é 

aceito e validado ("eu entendo que você está com muita raiva"), a ação é contida de forma 

firme e gentil ("mas o Pedro não é para bater"). Esse manejo permite que a criança 

aprenda a lidar com as frustrações do mundo social sem sentir que a própria essência está 

sendo   rejeitada.   O   limite,   assim   aplicado,   torna-se   terapêutico,   pois   ensina   a 

responsabilidade   pelas   ações   ao   mesmo   tempo   em   que   preserva   a   integridade   do 

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autoconceito infantil, permitindo que a autonomia se desenvolva dentro de um contorno 

seguro e respeitoso (Axline, 1972).

Essa diferenciação entre o plano do sentimento e o plano da conduta prática 

redefine a concepção tradicional de disciplina no espaço escolar. Ao dissociar a aceitação 

da   pessoa   da   aprovação   do   ato,   a   psicóloga   rompe   com   o   modelo   punitivo   que 

historicamente condiciona o afeto do adulto à obediência cega. Na rotina da creche-

escola, as regras deixam de ser impostas como dogmas arbitrários de controle e passam a 

funcionar   como   contornos   relacionais   necessários   para   a   coesão   social.   Quando   o 

professor, orientado pela psicologia, diz à criança que compreende a frustração, ele valida 

o dado fenomênico daquela experiência interna. A restrição física ou verbal subsequente, 

por exemplo ao “não podemos quebrar o brinquedo do colega" não é vivenciada pela 

criança   como   uma   invalidação   do   que   sente,   mas   como   uma   fronteira   objetiva   da 

realidade compartilhada. O limite estruturado sob essa ótica oferece a previsibilidade de 

que   a   estrutura   emocional   infantil   necessita   para   se   organizar,   operando   como   um 

anteparo que protege o sujeito dos próprios impulsos desmedidos.

Aprofundando a dimensão terapêutica desse manejo, a imposição humanizada de 

limites atua diretamente na internalização do senso de responsabilidade existencial. Sob o 

prisma de Rogers e Axline, a verdadeira autonomia não brota da ausência de restrições, 

mas   da   capacidade   do   organismo   de   realizar   escolhas   conscientes   dentro   das 

contingências do real. Ao invés de recorrer ao constrangimento público, ao isolamento, 

como   no   "cantinho   do   pensamento"   ou   à   perda   de   privilégios,   práticas   que   geram 

ressentimento e rebaixamento da autoestima, o psicólogo escolar promove um espaço de 

responsabilização. A criança aprende que todas as emoções são legítimas e têm direito de 

existir, mas que as ações geram impactos diretos no ecossistema ao redor. Essa ancoragem 

na realidade ensina a criança em desenvolvimento a negociar os próprios desejos com os 

desejos do outro, transformando a imposição do limite em um processo de aprendizagem 

ética e de fortalecimento da autorregulação organísmica.

A atuação da psicóloga sob a ótica da ACP enfrenta, primordialmente, o choque 

entre a temporalidade institucional e a temporalidade humana. O maior desafio reside na 

cultura da imediatidade que permeia o sistema educacional contemporâneo, onde há uma 

pressão constante por resultados rápidos, diagnósticos precoces e o "enquadramento" de 

comportamentos considerados desviantes. Muitas vezes, a escola e as famílias esperam 

que   a   psicologia   atue   como   uma   ferramenta   de   ajuste,   capaz   de   silenciar   sintomas 

incômodos, como a agressividade, o choro inconsolável ou o isolamento, para que a 

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ordem da rotina escolar seja preservada. No entanto, de acordo com Axline (1972),  a 

Abordagem Centrada  na Pessoa  (ACP)  propõe  um caminho  radicalmente oposto:  o 

respeito ao tempo da criança e a confiança na sabedoria organísmica.  

Essa divergência de perspectivas exige que a psicóloga atue como uma mediadora 

que sustenta a incerteza e a espera. Na ACP, entende-se que o sintoma não é o problema 

em si, mas uma tentativa desesperada e desajeitada da criança se comunicar ou se proteger 

em um ambiente que percebe como ameaçador. Quando a instituição escolar consegue, 

com   o   suporte  da   psicologia,   abdicar   da   necessidade  de   controle   e  passa  a   confiar 

genuinamente na capacidade de crescimento e autorregulação do aluno, ocorre uma 

transformação qualitativa no ambiente. Ao serem acolhidos com consideração positiva 

incondicional, os sintomas que antes eram disruptivos tendem a perder a função de defesa 

e se transmutam em expressões criativas de si. A mordida dá lugar à fala ou ao uso 

simbólico de objetos; o choro excessivo transforma-se em busca ativa por consolo e 

autonomia; e o isolamento se dissolve em uma exploração curiosa do espaço e do outro.

As possibilidades que emergem desse modelo são vastas, pois permitem que a 

creche-escola se torne um lugar de saúde mental preventiva. Ao priorizar o processo em 

detrimento do produto, a escola deixa de produzir crianças "obedientes" para fomentar o 

desenvolvimento   de   sujeitos plenamente   funcionais,   que   confiam   nos   próprios 

sentimentos e são capazes de lidar com a realidade de forma flexível. O desafio, portanto, 

transmuta-se   na   possibilidade   de   ressignificar   a   educação   infantil:   de   um   lugar   de 

instrução   para   um   espaço   de   encontro   existencial.   Assim,   de   acordo   com   nosso 

entendimento, quando a escola confia no tempo da criança, ela não apenas resolve 

conflitos comportamentais, mas oferece a base emocional necessária para que o indivíduo 

floresça com segurança e autenticidade ao longo de toda a vida.

Metodologia: 

O presente artigo é recorte bibliográfico, conforme os objetivos estipulados, cabe 

aqui, um estudo baseado essencialmente na obra dos autores renomados, e a partir disso, 

apresentar a interação do pensamento dos mesmos, o que se configurara como pesquisa 

descritiva.    O   artigo   foi   dividido   em   seções   além   dessa   metodologia,   introdução, 

resultados, considerações finais  e referências. Espera-se que este estudo proporcione 

novas reflexões sobre o alcance e a aplicabilidade da Ludoterapia Centrada na Criança no 

cotidiano da educação infantil, transcendendo as fronteiras do setting clínico tradicional. 

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Esta discussão visa instrumentalizar a comunidade escolar para a construção de uma rede 

de   apoio   integrada.   Espera-se,   fundamentalmente,   que   a   difusão   dessa   abordagem 

contribua   para   ressignificar   e   estreitar   a   tríade   relacional   composta   por   famílias, 

professores   e   alunos,   consolidando   a   creche-escola   como   um   espaço   de 

corresponsabilidade   existencial,   onde   o   desenvolvimento   socioemocional   e   a   saúde 

mental   infantis   sejam   sustentados   por   diálogos   empáticos   e   pela   valorização   da 

singularidade de cada sujeito.

Resultados: 

Os resultados obtidos através da articulação da Ludoterapia Centrada na Criança 

no   ambiente   escolar   manifestam-se,   primordialmente,   na   transformação   do   clima 

relacional   e   no   fortalecimento   do   autoconceito   infantil.   Observa-se   uma   mudança 

qualitativa na dinâmica do brincar, que evolui de ações desorganizadas ou puramente 

motoras para narrativas simbólicas ricas e fluidas. Esse fenômeno evidencia que, ao 

encontrar   um   ambiente   de   liberdade   experiencial,   a   criança   conquista   a   segurança 

necessária   para   expressar   o   mundo   interno,   transformando   o   brinquedo   em   uma 

ferramenta eficaz de comunicação e elaboração de conflitos, o que reduz a incidência de 

comportamentos disruptivos motivados por angústias não verbalizadas.

Além disso, nota-se um avanço significativo na autonomia e na capacidade de 

autorregulação das crianças. Ao serem respeitadas no próprio tempo e ritmo, passam a 

demonstrar   maior   iniciativa   na   resolução   de   problemas   cotidianos   e   uma   confiança 

crescente nas escolhas. Esse movimento de autoatualização é acompanhado por uma 

redução visível nos níveis de ansiedade institucional, especialmente nos momentos de 

transição e separação dos pais. A consideração positiva incondicional oferecida pela 

psicóloga   e   replicada   pelo   ambiente   escolar   atua   como   um   regulador   emocional, 

permitindo que a criança se sinta pertencente e valorizada por quem ela é, e não apenas 

pelo desempenho ou obediência.

Por fim, um resultado estrutural reside na ressignificação do olhar dos professores 

e das famílias. A atuação da psicóloga promove uma mudança de perspectiva onde o 

"comportamento   problema"   passa   a   ser   compreendido   como   uma   necessidade   de 

expressão. Essa sensibilização do corpo docente resulta em uma diminuição de posturas 

punitivas e no aumento de intervenções empáticas, criando um ciclo virtuoso de saúde 

mental. Dessa forma, os resultados transcendem o indivíduo e alcançam a coletividade, 

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estabelecendo a creche-escola como um espaço onde a segurança psicológica sustenta o 

desenvolvimento integral e a autenticidade de todos os envolvidos.

Considerações Finais: 

As considerações   finais consolidam   a   ideia   de   que   a   articulação   entre   a 

Ludoterapia   e   a   educação   infantil   promove   uma   ruptura   necessária   com   modelos 

meramente assistencialistas ou instrutivos. Ao adotar essa perspectiva, a creche-escola 

deixa de ser um lugar de cuidado básico ou guarda para se transformar em um autêntico 

espaço de promoção de saúde mental e desenvolvimento humano integral. A presença da 

psicóloga, imbuída das atitudes facilitadoras de Rogers e Axline, atua como o catalisador 

de uma mudança de paradigma: ela desloca o eixo da autoridade e do controle para a 

confiança e a autonomia.

Essa   transformação   reflete-se   diretamente   nas   três   frentes   de   atuação 

desenvolvidas ao longo deste estudo. No âmbito do brincar livre, a presença psicológica e 

o reflexo de sentimentos descentralizam o poder do adulto, validando o brinquedo como 

palavra e o brincar como discurso. No suporte aos professores, a oferta de uma escuta 

empática e da consideração positiva incondicional desarmas as defesas docentes geradas 

pelo   estresse   institucional;   o   professor,   ao   sentir-se   compreendido   nas   próprias 

vulnerabilidades, humaniza o olhar pedagógico e passa a replicar essa mesma aceitação 

com  os alunos.  Da  mesma forma,  o  manejo  terapêutico  de limites  materializa  essa 

filosofia ao separar o sentimento da conduta prática, oferecendo à criança a estrutura de 

segurança necessária para que ela se ancore na realidade sem ter a essência rejeitada.

Nesse horizonte, a criança deixa de ser vista como um objeto de intervenção para 

tornar-se a verdadeira protagonista da própria história escolar. A atuação psicológica sob 

a ótica da ACP garante que o ambiente educativo seja um solo seguro onde a tendência 

atualizante pode operar livremente, permitindo que cada pequeno sujeito descubra as 

próprias capacidades de autorregulação e convivência. Em última análise, essa prática 

reafirma que a função da psicologia na educação não é o de moldar comportamentos, mas 

o de sustentar as condições de liberdade e aceitação necessárias para que o ser humano 

floresça na máxima autenticidade desde os primeiros passos no mundo social.

Deseja-se   que   este   estudo   fomente   novas   reflexões   sobre   o   alcance   e   a 

aplicabilidade da Ludoterapia no cotidiano da creche-escola, transcendendo as fronteiras 

do   setting   clínico   tradicional.   Espera-se,   fundamentalmente,   que   a   difusão   dessa 

abordagem   contribua   para   ressignificar   e   estreitar   a   tríade   relacional   composta   por 

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famílias,   professores   e   alunos,   consolidando   a   escola   como   um   espaço   de 

corresponsabilidade existencial. Em última análise, essa prática reafirma que a função da 

psicologia na educação não é o de moldar comportamentos através de recompensas ou 

punições, mas o de sustentar as condições de liberdade e aceitação necessárias para que o 

ser humano floresça na máxima autenticidade desde os primeiros passos no mundo social.

Referências:

AXLINE, Virginia Mae. Ludoterapia: a dinâmica interior da infância. Belo Horizonte: 
Interlivros, 1972. (Obra original publicada em 1947).

LANDRETH, Garry L. Play Therapy: the art of the relationship. 3. ed. New York: 
Routledge, 2012.

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

ROGERS, Carl R. Terapia centrada no Cliente. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

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