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O PAPEL DA ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL FRENTE À CRISE DE
SAÚDE MENTAL NO AMBIENTE ESCOLAR: DESAFIOS E
ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO
THE ROLE OF EDUCATIONAL GUIDANCE IN THE FACE OF THE MENTAL
HEALTH CRISIS IN THE SCHOOL ENVIRONMENT: CHALLENGES AND
INTERVENTION STRATEGIES
RESUMO
O crescimento de casos de ansiedade, depressão, automutilação e outras formas de sofrimento
psíquico entre crianças e adolescentes tornou a saúde mental um tema central nas instituições
escolares brasileiras. Nesse contexto, a orientação educacional assume papel estratégico na
construção de práticas de acolhimento, prevenção e mediação. O Método aqui adotado, é a
pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e caráter exploratório, desenvolvida a partir da
análise de livros, artigos científicos e documentos institucionais relacionados à saúde mental,
orientação educacional e ambiente escolar. Resultados - a análise evidenciou que a orientação
educacional enfrenta desafios estruturais significativos — sobrecarga de demandas, ausência de
equipes multidisciplinares e compreensão equivocada de seu papel —, mas dispõe de
estratégias eficazes de intervenção quando inserida em redes colaborativas de cuidado. Conclui-
se que o fortalecimento da saúde mental escolar depende da articulação entre orientação
educacional, políticas públicas, formação continuada de profissionais e participação ativa das
famílias.
PALAVRAS-CHAVE:
Orientação educacional; Saúde mental; Ambiente escolar;
Intervenção; Educação socioemocional.
ABSTRACT
Introduction: the growing number of cases of anxiety, depression, self-harm and other forms of
psychological distress among children and adolescents has made mental health a central issue in
Brazilian schools. In this context, educational guidance plays a strategic role in building
welcoming, preventive and mediation practices. Method: this is a qualitative, bibliographic and
exploratory study based on the analysis of books, scientific articles and institutional documents
related to mental health, educational guidance and the school environment. Results: the analysis
revealed that educational guidance faces significant structural challenges — work overload,
lack of multidisciplinary teams and a misunderstanding of its role — but has effective
intervention strategies when embedded in collaborative care networks. Conclusion:
strengthening mental health in schools depends on the articulation between educational
guidance, public policies, continuing professional development and active family participation.
KEYWORDS:
Educational guidance; Mental health; School environment; Intervention;
Socio-emotional education.
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Trabalho submetido em janeiro de 2026. Aprovado em junho de 2026
Trabalho submetido em janeiro de 2026. Aprovado em junho de 2026
1 Pedagoga, Especialista em Orientação Educacional
Ana Kely Paulino Barsch¹
1 INTRODUÇÃO
As transformações sociais, culturais e tecnológicas das últimas décadas reconfiguraram
profundamente o cotidiano escolar e as relações humanas no interior das instituições de ensino.
A escola, historicamente centrada no desenvolvimento cognitivo e na transmissão de conteúdos
curriculares, passou a ser convocada a responder a demandas que extrapolam sua função
tradicional, assumindo responsabilidades relacionadas ao acolhimento, ao cuidado e ao
desenvolvimento integral dos sujeitos (Libâneo, 2018).
Nesse cenário, a saúde mental emergiu como tema prioritário nas discussões
educacionais contemporâneas. Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, 2023)
indicam que cerca de 20% das crianças e adolescentes em idade escolar apresentam algum
transtorno mental diagnosticável, sendo a ansiedade e a depressão os mais prevalentes. No
Brasil, o cenário é agravado por desigualdades socioeconômicas, violência urbana,
precariedade das redes de apoio e os efeitos prolongados da pandemia de Covid-19, que
intensificaram o sofrimento psíquico de estudantes e profissionais da educação (Brasil, 2022).
Diante desse quadro, a orientação educacional ocupa posição estratégica no interior das
escolas. Sua atuação, que historicamente oscilou entre funções administrativas, disciplinares e
pedagógicas, passou a incorporar dimensões preventivas, socioemocionais e de articulação
institucional. O orientador educacional torna-se, assim, um dos principais agentes de
identificação precoce de demandas emocionais e de construção de redes de cuidado no ambiente
escolar (Grinspun, 2011).
Este artigo tem como objetivo analisar os desafios enfrentados pela orientação
educacional diante da crise de saúde mental no ambiente escolar e discutir estratégias de
intervenção fundamentadas na literatura especializada. O trabalho está organizado em cinco
seções além desta introdução. Primeiro apresenta-se o referencial teórico sobre saúde mental e
escola; em seguida, discute-se o papel da orientação educacional frente às demandas
socioemocionais; na sequência, descrevem-se os procedimentos metodológicos; apresentam-se
as estratégias de intervenção identificadas na literatura; e, por fim, são tecidas as considerações
finais.
2 SAÚDE MENTAL E AMBIENTE ESCOLAR - DESAFIOS CONTEMPORÂNEOS
A saúde mental é compreendida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um
estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza suas próprias capacidades, lida com os estresses
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normais da vida, trabalha de forma produtiva e contribui para sua comunidade (OMS, 2022). No
contexto escolar, essa dimensão está diretamente articulada ao desenvolvimento da
aprendizagem, das relações interpessoais e da formação integral dos estudantes.
Nos últimos anos, observou-se crescimento expressivo de situações envolvendo
ansiedade, depressão, automutilação, isolamento social e dificuldades emocionais entre
crianças e adolescentes em idade escolar. Pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Saúde
Mental dos Estados Unidos (Nimh, 2021) aponta que metade de todos os transtornos mentais ao
longo da vida tem início antes dos 14 anos de idade, reforçando a importância de intervenções
precoces no contexto escolar.
No Brasil, o Relatório de Saúde Mental na Escola, publicado pelo Conselho Federal de
Psicologia (CFP, 2019), identificou que professores e gestores escolares percebem aumento
significativo de demandas emocionais entre os estudantes, mas relatam despreparo para lidar
com essas situações e ausência de suporte institucional adequado. Esse dado evidencia a
necessidade de políticas públicas específicas e de formação continuada para os profissionais da
educação.
A cultura do desempenho, a hiperconectividade e a exposição constante às redes sociais
ampliam processos de comparação, insegurança e pressão emocional entre adolescentes. Turkle
(2015) argumenta que a conectividade permanente, paradoxalmente, tem produzido formas de
solidão e isolamento que se manifestam com intensidade no ambiente escolar, afetando a
capacidade de atenção, a regulação emocional e as relações interpessoais dos estudantes.
Além dos fatores individuais, é necessário considerar os determinantes sociais da saúde
mental. Pobreza, violência doméstica, racismo, LGBTfobia e outras formas de discriminação
constituem fatores de risco que afetam desproporcionalmente estudantes em situação de
vulnerabilidade social. A escola, ao ignorar esses determinantes, corre o risco de patologizar
comportamentos que são, na verdade, respostas adaptativas a contextos de adversidade
(Guarido, 2007).
3 O PAPEL DA ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL FRENTE ÀS DEMANDAS
SOCIOEMOCIONAIS
A orientação educacional constitui uma das especialidades da educação reconhecidas
pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei n.º 9.394/1996, que prevê a
presença de especialistas em educação nas escolas públicas brasileiras. Historicamente, sua
atuação oscilou entre funções vocacionais, disciplinares e pedagógicas, refletindo as
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transformações das concepções de educação e de desenvolvimento humano ao longo do século
XX (Grinspun, 2011).
Na perspectiva contemporânea, a orientação educacional assume caráter
multidimensional, articulando dimensões pedagógicas, sociais, emocionais e institucionais. Sob
a perspectiva sociocultural de Vygotsky (2007), o desenvolvimento humano ocorre por meio
das interações sociais mediadas por instrumentos culturais, o que reforça a importância das
relações estabelecidas no contexto escolar e o papel do orientador como mediador qualificado
dessas interações.
Entre as atribuições contemporâneas do orientador educacional destacam-se a escuta
ativa e o acolhimento de estudantes em sofrimento emocional; a mediação de conflitos
interpessoais e institucionais; o desenvolvimento de ações preventivas em saúde mental; o
acompanhamento de estudantes em situação de vulnerabilidade; a articulação com famílias,
equipes pedagógicas e redes de apoio externas; e o encaminhamento de demandas que requerem
acompanhamento especializado de psicólogos, psiquiatras ou assistentes sociais (Grinspun,
2011; Perrenoud, 2000).
É fundamental distinguir a atuação do orientador educacional da do psicólogo escolar.
Enquanto o psicólogo realiza avaliações diagnósticas e intervenções clínicas, o orientador atua
no campo pedagógico e institucional, promovendo condições favoráveis ao desenvolvimento
integral dos estudantes. Essa distinção não implica hierarquia, mas complementaridade, a
presença de ambos os profissionais nas escolas constitui condição ideal para o enfrentamento
das demandas de saúde mental no ambiente escolar (CFP, 2019).
A delimitação das fronteiras de atuação da orientação educacional no território escolar
constitui um nó crítico na literatura contemporânea, frequentemente tensionada pelo acúmulo
de funções burocráticas ou pela expectativa equivocada de uma atuação clínica. Para conferir
maior inteligibilidade à governança pedagógica e institucional desse profissional, o Quadro 1
sistematiza as matrizes de competência do orientador frente às demandas socioemocionais,
discriminando sua atuação em face de outras instâncias, conforme demosntrado em quadro 1 a
seguir.
Quadro 1 – Matriz de Atuação Institucional da Orientação Educacional em Saúde Mental
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Dimensão de
Análise
Atuação Própria da
Orientação
Educacional
Diferenciação /
Complementaridade
(Psicologia Escolar)
O que NÃO compete à
Orientação (Desvios de
Função)
Escuta
e
Acolhimento
Escuta pedagógica ativa,
identificação precoce de
sinais de sofrimento e
mapeamento
de
vulnerabilidades no
cotidiano escolar.
O psicólogo realiza a escuta
clínica e a avaliação
diagnóstica aprofundada dos
quadros de sofrimento
psíquico.
Aplicação de testes
psicológicos, sessões de
psicoterapia interna ou
emissão de laudos
clínicos e diagnósticos.
Mediação de
Conflitos
Facilitação dialógica de
crises interpessoais e
mediação institucional
entre as esferas escolar e
familiar.
O psicólogo atua na análise
dos processos subjetivos e
psicossociais que subjazem
aos conflitos crônicos.
Aplicação de medidas
punitivas
puras,
advertências
administrativas
ou
atuação como agente
meramente disciplinar.
Articulação
em Rede
Encaminhamento formal
para a rede de apoio
externa (CAPSi, postos
de
saúde)
e
acompanhamento do
rendimento escolar do
aluno.
O psicólogo articula a
interface técnico-clínica
com os terapeutas externos e
supervisiona o manejo
psicopedagógico
institucional.
Gestão isolada de casos
complexos de saúde
mental sem o respaldo
de redes colaborativas
multidisciplinares.
Fonte: Elaborado pela autora (2026), com base em Grinspun (2011) e Conselho Federal de Psicologia
(2019).
A sistematização apresentada no Quadro 1 evidencia que a práxis do orientador
educacional não se confunde com o fazer psicoterapêutico, tampouco se reduz ao
gerenciamento de planilhas e arquivos burocráticos. Ao delimitar que o acolhimento do
orientador possui natureza estritamente pedagógica e institucional, resguarda-se a identidade
desse profissional contra os processos de sobrecarga que culminam no adoecimento
ocupacional.
Ademais, sob a lente sociocultural de Vygotsky, essa matriz reforça o orientador como o
mediador cultural qualificado da escola, aquele que reconfigura o espaço das interações para
que o ambiente de aprendizagem atue como um fator de proteção e promoção do bem-estar, e
não como um vetor de estresse e adoecimento psíquico. A complementaridade explicitada em
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relação à psicologia escolar corrobora a tese de que o enfrentamento da crise de saúde mental
escolar exige a superação do modelo do "profissional herói" isolado, demandando arranjos
estruturais multidisciplinares estáveis no interior das instituições de ensino.
Paulo Freire (1996) enfatiza a importância do diálogo como prática transformadora e
elemento essencial na construção das relações educativas. Sob essa perspectiva, o orientador
educacional que adota uma postura dialógica — baseada na escuta genuína, no respeito à
autonomia dos sujeitos e na construção coletiva de soluções — contribui não apenas para o
bem-estar individual dos estudantes, mas para a transformação da cultura institucional da
escola.
4 METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e caráter
exploratório. Conforme Minayo (2016), a abordagem qualitativa possibilita compreender
processos sociais, relações humanas e significados presentes nos fenômenos investigados,
sendo especialmente adequada para o estudo de práticas educacionais e de saúde, cujas
dimensões subjetivas e contextuais não se reduzem a variáveis quantificáveis.
A pesquisa bibliográfica foi desenvolvida a partir do levantamento e da análise de
produções acadêmicas publicadas entre 2000 e 2024, incluindo livros, artigos científicos
indexados nas bases SciELO, ERIC e Google Acadêmico, dissertações, teses e documentos
institucionais de organismos nacionais e internacionais. Os descritores utilizados nas buscas
foram orientação educacional, saúde mental escolar, intervenção socioemocional, bem-estar
estudantil e educação integral.
A seleção das fontes obedeceu a critérios de relevância temática, rigor metodológico e
atualidade. Foram priorizadas produções que apresentassem fundamentação teórica consistente
e contribuições empíricas ou conceituais para a compreensão do papel da orientação
educacional frente às demandas de saúde mental no ambiente escolar. A análise dos dados foi
realizada de forma interpretativa, por meio de categorias temáticas emergentes do corpus:
desafios estruturais, estratégias de intervenção e perspectivas de fortalecimento da orientação
educacional.
5 ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO E DESAFIOS DA ORIENTAÇÃO
EDUCACIONAL
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A promoção da saúde mental no ambiente escolar exige ações integradas que envolvam
gestão escolar, docentes, famílias e equipes multidisciplinares. A literatura especializada aponta
que intervenções isoladas, centradas em indivíduos específicos, têm eficácia limitada quando
comparadas a abordagens sistêmicas que transformam a cultura institucional da escola
(UNESCO, 2021).
Entre as estratégias de intervenção com maior respaldo na literatura destacam-se os
programas de educação socioemocional, que desenvolvem competências como
autoconhecimento, regulação emocional, empatia e tomada de decisão responsável. Pesquisas
de metanálise realizadas pelo Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning
(Casel, 2020) demonstram que programas de aprendizagem socioemocional bem
implementados produzem melhora significativa no desempenho acadêmico, na redução de
comportamentos problemáticos e no bem-estar geral dos estudantes.
As rodas de conversa e os espaços de escuta constituem outra estratégia relevante, ao
criar condições para que os estudantes expressem suas experiências emocionais em ambiente
seguro e acolhedor. Freire (1996) compreende o diálogo como prática transformadora que
humaniza as relações e fortalece a consciência crítica dos sujeitos. No contexto da orientação
educacional, essa perspectiva se traduz em práticas que valorizam a voz dos estudantes e os
reconhecem como protagonistas de seu próprio desenvolvimento. A transição de uma postura
meramente reativa — que intervém apenas quando a crise ou o sofrimento psíquico já se
manifestaram de forma aguda — para uma postura preventiva e sistêmica exige o planejamento
de ações em diferentes níveis de complexidade. Com o intuito de organizar as evidências e
recomendações encontradas na literatura especializada consultada nesta pesquisa bibliográfica,
a Tabela 1 categoriza as principais estratégias de intervenção segundo seus níveis de alcance
institucional e impacto no ambiente escolar.
Tabela 1 – Níveis de Intervenção e Estratégias de Promoção da Saúde Mental na Escola
Nível de
Intervenção
Foco Estratégico
Principais Ações
Identificadas na Literatura
Autores /
Referenciais de
Suporte
Prevenção
Universal (Toda
Promoção do clima escolar
positivo e desenvolvimento de
Programas estruturados de
aprendizagem
CASEL (2020);
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Nível de
Intervenção
Foco Estratégico
Principais Ações
Identificadas na Literatura
Autores /
Referenciais de
Suporte
a Escola)
competências socioemocionais
para todos os estudantes.
socioemocional (SEL);
Rodas de conversa regulares
e assembleias estudantis;
Formação continuada
docente sobre saúde mental.
UNESCO (2021);
Freire (1996).
Prevenção
Seletiva (Grupos
de Risco)
Atenção a grupos ou estudantes
que apresentam indicadores de
vulnerabilidade acrescida ou
sofrimento inicial.
Grupos de escuta temáticos
(ex: transição escolar,
ansiedade frente a exames);
Fortalecimento de vínculos
com famílias em situação de
vulnerabilidade.
Polônia e Dessen
(2005);
Turkle (2015);
Guarido (2007).
Intervenção
Indicada (Casos
de Crise)
Manejo imediato de crises
manifestas e articulação do plano
de encaminhamento e retorno
seguro ao ambiente escolar.
Protocolos de acolhimento e
escuta ativa individualizada
em momentos de crise;
Ativação da rede de apoio
intersetorial e fluxos de
contrarreferência.
Ministério da
Saúde (2022);
OPAS (2023);
Grinspun (2011).
Elaborado pela autora (2026), com base nos dados analisados no corpus da pesquisa.
A estruturação das intervenções em níveis (Tabela 1) permite inferir que a maior eficácia
e sustentabilidade das ações em saúde mental escolar residem no topo da pirâmide preventiva,
isto é, nas estratégias de Prevenção Universal. Ao universalizar os programas de educação
socioemocional e as rodas de conversa inspiradas na pedagogia dialógica freireana, a escola
reduz a incidência de comportamentos problemáticos crônicos e descentraliza a carga
emocional que costuma desabar unicamente sobre a orientação educacional.
No entanto, o que a análise interpretativa do corpus documental também revela é que as
escolas públicas brasileiras operam de forma invertida: devido à ausência de políticas públicas
contínuas e ao deficit crônico de infraestrutura, os orientadores passam a maior parte do tempo
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gerenciando a
Intervenção Indicada
, ou seja, respondendo de forma emergencial a crises agudas
de automutilação, crises de pânico e surtos depressivos. Esse desequilíbrio estrutural sequestra o
tempo que deveria ser dedicado ao planejamento de estratégias universais e de formação com os
docentes, gerando um ciclo retroalimentar onde o sofrimento psíquico prolifera na exata medida
em que a capacidade preventiva da instituição é esvaziada.
Portanto, a formação continuada dos profissionais da educação é condição indispensável
para o enfrentamento das demandas de saúde mental no ambiente escolar. Perrenoud (2000)
argumenta que as novas competências exigidas dos educadores incluem a capacidade de lidar
com situações de sofrimento emocional, de trabalhar em equipe multidisciplinar e de articular a
escola com redes de apoio externas. Sem investimento sistemático em formação, os
profissionais tendem a reproduzir práticas inadequadas ou a desenvolver processos de
adoecimento ocupacional.
O fortalecimento da parceria família-escola representa outro eixo estratégico
fundamental. Pesquisas indicam que o envolvimento familiar está positivamente associado ao
bem-estar emocional e ao desempenho acadêmico dos estudantes (Polonia; Dessen, 2005). O
orientador educacional desempenha papel central na construção dessa parceria, ao mediar a
comunicação entre famílias e escola e ao promover ações que fortaleçam os vínculos afetivos e
a corresponsabilidade no cuidado com os estudantes.
Apesar da relevância dessas estratégias, a orientação educacional enfrenta desafios
estruturais significativos. A sobrecarga de demandas institucionais, a ausência de equipes
multidisciplinares, a falta de formação específica em saúde mental e as dificuldades de
infraestrutura comprometem a efetividade da atuação dos orientadores. Em muitos contextos
escolares, o aumento das demandas emocionais não foi acompanhado por investimentos
proporcionais em políticas de apoio e recursos humanos (CFP, 2019).
Outro desafio relevante refere-se à compreensão equivocada do papel do orientador
educacional, frequentemente reduzido a funções administrativas ou disciplinares. Essa redução
compromete a construção de uma identidade profissional sólida e dificulta o reconhecimento
institucional necessário para que o orientador possa atuar com autonomia e efetividade nas
demandas de saúde mental. Superar esse equívoco exige tanto a formação qualificada dos
profissionais quanto a sensibilização das gestões escolares para a importância estratégica dessa
função.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
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A crise de saúde mental no ambiente escolar representa um dos principais desafios
educacionais contemporâneos, exigindo respostas institucionais articuladas, fundamentadas em
evidências e comprometidas com o desenvolvimento integral dos estudantes. Este artigo buscou
demonstrar que a orientação educacional ocupa posição estratégica nesse cenário, ao articular
práticas de acolhimento, prevenção, mediação e encaminhamento no interior das escolas.
A análise da literatura evidenciou que a efetividade da orientação educacional frente às
demandas de saúde mental depende de condições estruturais que ainda estão longe de ser
universalizadas no sistema educacional brasileiro: equipes multidisciplinares, formação
continuada, infraestrutura adequada e políticas públicas específicas. Sem esses suportes, o
orientador corre o risco de ser sobrecarregado por demandas que excedem suas possibilidades
de atuação, comprometendo tanto sua saúde quanto a qualidade do cuidado oferecido aos
estudantes.
Conclui-se que o fortalecimento da saúde mental na escola depende da construção de
redes colaborativas que integrem orientadores educacionais, psicólogos, assistentes sociais,
docentes, gestores e famílias em torno de um projeto comum de cuidado e desenvolvimento
humano. A orientação educacional, nesse contexto, não é apenas uma função técnica, mas uma
prática política e ética comprometida com a construção de escolas mais humanas, justas e
acolhedoras.
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